Deputado federal e ex-presidente do Flamengo alerta para os riscos da dependência dos patrocínios de bets e propõe medidas de transparência, governança e sustentabilidade para o futebol brasileiro.

O impacto das restrições ao mercado de apostas esportivas sobre as finanças dos clubes brasileiros reacendeu o debate sobre a sustentabilidade econômica do futebol nacional. Para o deputado federal Eduardo Bandeira de Mello, que presidiu o Flamengo entre 2013 e 2018, o momento exige mais do que soluções emergenciais: é necessário repensar a forma como os clubes administram suas receitas e planejam seus investimentos.
Em artigo publicado originalmente no Sport Insider, o parlamentar analisou os riscos da dependência financeira das casas de apostas e destacou que o futebol brasileiro precisa avançar em governança, transparência e responsabilidade fiscal.
Segundo Bandeira de Mello, a presença das empresas de apostas no futebol cresceu rapidamente, tornando-se uma fonte importante de recursos para diversos clubes. Entretanto, a concentração de receitas em um setor sujeito a mudanças regulatórias representa um risco para o equilíbrio financeiro das instituições esportivas.
Combate às apostas ilegais e proteção das famílias
Bandeira de Mello defende medidas rigorosas para reduzir os impactos sociais das apostas, especialmente o endividamento das famílias e os problemas de saúde associados ao jogo compulsivo.
O deputado também reconhece que, durante o processo de regulamentação do setor no Congresso Nacional, a dimensão dos riscos sociais foi subestimada.
Para ele, entretanto, medidas restritivas precisam ser acompanhadas de ações efetivas contra o mercado clandestino, evitando que apostadores migrem para plataformas ilegais e fiquem ainda mais expostos à ausência de fiscalização e proteção.
Entre as medidas consideradas necessárias estão o bloqueio de sites irregulares, a interrupção dos fluxos de pagamento destinados às operações ilegais, a fiscalização da publicidade disfarçada nas redes sociais e o fortalecimento dos órgãos reguladores.
O objetivo, segundo o parlamentar, deve ser sempre a proteção das pessoas e a redução dos danos sociais associados às apostas.
A dependência dos patrocínios e os riscos para os clubes
Outro ponto destacado pelo deputado é a necessidade de diferenciar receitas permanentes de recursos extraordinários.
Embora os contratos de patrocínio das casas de apostas tenham valores e prazos definidos, o setor apresenta riscos regulatórios que podem comprometer a continuidade dessas receitas.
Bandeira de Mello observa que outros países passaram por processos semelhantes, com rápida expansão dos patrocínios esportivos seguida de restrições à publicidade e à presença das empresas de apostas no futebol.
O problema se agrava quando os clubes utilizam receitas potencialmente temporárias para assumir compromissos de longo prazo, como salários elevados e contratos de atletas com duração de vários anos.
Nesse cenário, uma eventual redução dos patrocínios pode comprometer o pagamento das despesas e ampliar o endividamento das instituições.
A experiência do Flamengo como exemplo de gestão
Ao abordar os desafios financeiros do futebol brasileiro, Bandeira de Mello relembrou decisões tomadas durante sua gestão à frente do Flamengo.
Em 2016, quando os clubes receberam recursos extraordinários relacionados à renovação dos contratos de transmissão de televisão, a administração rubro-negra optou por direcionar parte significativa desses valores para investimentos estruturais e redução de dívidas.
Entre as prioridades estavam a modernização do centro de treinamento, o fortalecimento da estrutura do clube e a preservação de recursos para os anos seguintes.
A decisão enfrentou críticas naquele momento, especialmente diante da pressão por contratações e resultados imediatos.
Para Bandeira de Mello, a experiência demonstra que é possível conciliar competitividade esportiva com planejamento financeiro, mesmo diante das cobranças naturais do futebol.
O parlamentar defende que receitas não recorrentes sejam utilizadas prioritariamente para investimentos, fortalecimento patrimonial e redução de passivos, evitando que compromissos permanentes dependam de fontes de recursos incertas.
Transparência, Profut e novas regras de governança
Como presidente da Frente Parlamentar pela Modernização do Futebol, Bandeira de Mello defende o aprimoramento dos mecanismos de responsabilidade fiscal e transparência na administração dos clubes.
Uma das propostas é fortalecer instrumentos como o Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro (Profut), criado em 2015 para permitir a renegociação de dívidas mediante compromissos de gestão.
Entre as medidas defendidas pelo deputado estão:
- Responsabilidade financeira: estabelecer critérios para que receitas extraordinárias sejam direcionadas prioritariamente à redução de dívidas e a investimentos estruturais.
- Transparência: exigir balanços padronizados, auditados e publicados dentro dos prazos estabelecidos.
- Investimento na formação de atletas: estimular o financiamento de infraestrutura esportiva e categorias de base, em vez de ampliar despesas com contratações.
- Combate à pirataria: fortalecer as ações contra a transmissão ilegal de partidas, protegendo uma fonte importante de receitas dos clubes.
Para o parlamentar, o acesso a programas federais, benefícios fiscais ou renegociações de dívidas deve estar associado ao cumprimento de critérios claros de governança e responsabilidade financeira.
Um novo caminho para o futebol brasileiro
Bandeira de Mello considera que o poder público pode contribuir para a adaptação dos clubes às mudanças do mercado, mas ressalta que eventuais medidas de apoio não devem simplesmente substituir receitas privadas perdidas por recursos públicos.
O foco deve estar na modernização da gestão, no fortalecimento das fontes sustentáveis de receita e na criação de mecanismos que reduzam o risco de novas crises financeiras.
O deputado também defende o diálogo entre clubes, entidades esportivas e Governo Federal para construir soluções de longo prazo.
Para ele, o futebol brasileiro possui torcida, talento e potencial econômico suficientes para alcançar maior estabilidade financeira. O desafio é transformar práticas de boa gestão em regras permanentes, independentemente de quem esteja à frente das instituições.
A discussão sobre as apostas esportivas, portanto, representa uma oportunidade para avançar na modernização do futebol nacional, com mais transparência, planejamento e responsabilidade.
Artigo de Eduardo Bandeira de Mello publicado no Sport Insider: https://sportinsider.com.br/newsletter/bandeira-de-mello-o-dinheiro-das-bets-nunca-foi-receita-para-o-futebol-foi-bolha/